RSS

RACHEL: O DRAMA HUMANO EM O QUINZE

24 jan

 

Rachel de Queiroz

Editora José Olympio

77ª Edição – Rio de Janeiro

Rachel de Queiroz… Cearense por nascimento, carioca por escolha. Dividiu seu tempo entre um e outro estado; trabalhou ininterruptamente criando personagens rurais e urbanos fortes como seu texto, sua vida, suas convicções político-sociais; um estilo inconfundível, que a premiou com a Academia Brasileira de Letras. O Quinze, primeiro romance da autora integrado à ficção regionalista nordestina, retrata brilhantemente essa característica – própria mesma do movimento realista da última metade do séc.. XIX – em que o aspecto sociológico, bem mais que o psicológico, determina, condiciona o comportamento:

"Cordulina assustou-se:

- Chico, que é que se come amanhã?

A generosidade matuta que vem na massa do sangue, e florescia no altruísmo singelo do vaqueiro, não se perturbou:

-Sei lá! Deus ajuda! “Eu é que não havera de deixar esses desgraçados roerem osso podre.”

Talvez a própria Rachel, comunista por princípio, num mundo que virava de ponta à cabeça com a Revolução Bolchevique de 1917, deixa-se surpreender em seus personagens com a velha utópica idéia de conciliação entre os agentes de produção capitalista,… Um possível "acordo" proletário-burguês, mais que acordo, humanidade cristã.

O ano é 1930. Vargas assume, através de um golpe, o governo federal do Estado Novo. O Brasil vive um momento ímpar de "destruição" – no dizer de Mário de Andrade – mais que construção com a Semana de Arte Moderna. Há uma busca ávida do "homem brasileiro", da identidade brasileira. É o Brasil tentando se redescobrir em sua identidade. À parte os exageros dos adeptos ufanistas, constrói-se uma literatura engajada em que o social desponta com força de personagem.

No romance O Quinze, Rachel constrói duas seqüencias narrativas paralelas: Chico Bento, retirante da seca, expulso da terra, compõe o social da trama;… Conceição, que recusa o amor de Vicente, esterilizada na terra ardente do sertão, compõe o psicológico. Segue-se um estilo rigoroso, enxuto, conciso, fragmentário a cinema e que se basta: …” Vicente marchava através da estrada vermelha e pedregosa, orlada pela galharia negra da caatinga morta. Os cascos do animal pareciam tirar fogo nos seixos do caminho. Lagartixas davam carreirinhas intermitentes por cima das folhas secas no chão que estalavam como papel queimado.” Chega-se ao fim do romance: "forte" como o personagem, cônscio e desejoso de mais leitura, de mais Rachel,… Fica-se socialmente mais crítico, e anseia-se por mudanças sociais,… Políticas! Por outro, a ternura, a comunhão, a partilha do pão nos convida a sermos solidários,… Humanos!

Enfim, e tentando não ser repetitivo ao que já foi dito e publicado, não esqueçamos, atentemos para a capacidade inerente de seus textos em produzir imagens.

"Só a Maria, a preta velha da cozinha, irrompeu pelo corredor, acocorou-se a um canto e engulhando lágrimas e mastigando rezas resmungava:

- O inverno! Senhor São José, o inverno! Benza-o Deus!"

Vitória, 20 de janeiro do ano de 2009.

João Ricardo A de Miranda

 
Leave a comment

Publicado por em janeiro 24, 2009 em Livros

 

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s

 
Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.